Comer galinha caipira é osso *

abril 05, 2020


* Manoel Lourenço / Emater/RN

Nas décadas de 1980 e 1990, nós que fazíamos as Emater's no Nordeste enfrentamos muitos problemas na zona rural; nos períodos de estiagem a famosa seca nordestina, a gente coordenava as frentes de trabalho com grupos de produtores rurais construindo pequenos barreiros nas propriedades, consertando estradas e outras atividades programadas, que, como já era sabido, nunca deixavam resultados que apontassem para uma saída definitiva.

Na verdade Isso tornou-se um faz de conta; no fundo as autoridades não tinham interesse em pôr fim a esse martírio, que, na verdade, ainda hoje perdura, com outra roupagem.

Os pagamentos eram feitos mensalmente; andávamos num jeep, com caixas de papelão estufadas de dinheiro sem que fôssemos importunados.

Uma mesinha com uma caneta e uma almofada para as digitais dos que não assinavam era tudo que precisávamos.

Lá fora, uma fila com os inscritos que recebiam seu dinheiro e deixavam na bodega mais próxima e começava tudo novamente.

Num desses pagamentos, na Vila Mato Grosso em Serra do Mel, eu recebi um convite pra almoçar na casa de seu Joaquim Adelino; seu filho, Milton da Mato Grosso, que, na verdade, chama-se José Antonio, filho de dona Romana que chamam-na de Cícera; Cícera de Joaquim véi. No interior do Nordeste, o nome das pessoas vem, quase que invariavelmente, ligado ao cônjuge, pai ou mãe.

Seu Joaquim Adelino, já falecido, era de uma família de respeito na Serra do Mel, uma família que ajudou a povoar muitas vilas, sempre contribuindo dignamente com seu trabalho para construção da história do povo da Serra.

A exemplo de seus irmãos, Joaquim tinha uma particularidade: era a caixa da paciência, não tinha tempo ruim pra ele; era do pensamento de que, no futebol quem tinha que correr era a bola.

Terminado o pagamento fui, com Milton, à sua casa e esperei algumas "horas" por seu Joaquim que estava no banho. É hora de começarmos, sentamos à mesa, somente seu Joaquim e eu; os outros já tinham almoçado; seu Joaquim esperou pela minha companhia.

Dona Cícera, que ainda vive, me conhecia bem e sabia de minha queda por galinha caipira, principalmente, se feita em panela de barro e preparou no capricho.

A gente comendo e conversando, próximo a meu prato começou a formar-se aquele amontoado de ossos, fruto de minha afinidade com a panela.

Eu pensei: seu Joaquim não pôs, ainda, nem um osso próximo a seu prato; diferente de mim, acho que ele tá comendo mais os pedaços sem osso; vou dividir, sorrateiramente, um pouco desses ossos com ele, pondo-os próximos a seu prato, assim eu dou um desbaste e me livro do retrato em cores de minha ganância.

Tive o cuidado de não pô-los muito perto de seu prato, assim ele poderia ver e, certamente, frustrar meus planos.

Terminado o almoço, dona Cícera veio com o inevitável kit limpeza, formado por bacia de alumínio, impecavelmente brilhando, sabão e uma toalhinha caprichosamente limpa.

Enquanto eu lavava as mãos, dona Cícera cuidava de desfazer a mesa; inicialmente com as costas de uma faca, arrastava os ossos, pondo-os num prato servido.

Primeiro desfez meu monte, e, meio sem entender, mas, com muita educação, foi puxando os ossos que estavam próximos ao prato de seu Joaquim.

Num gesto de quem estava querendo que dona Cícera não "olhasse" aquele exagerado monte de ossos, eu ensaiei um discurso sem alicerce:

- Dona Cícera, a galinha tava impecável, excelente; pelos dois montes de ossos, deu pra ver que a gente nem sabe quem gostou mais -  se eu ou seu Joaquim.

Dona Cícera, como quem dissesse que eu perdi uma boa oportunidade de ficar calado, sem nem olhar pra mim e, usando uma educação peculiar às famílias camponesas, disse baixinho:

- Seu Lorenço, Joaquim num come galinha, não!!!

2 Comentários

  1. Anônimo5/4/20 12:32

    Parabéns ao senhor Lourenço pelo excelente texto. sorri bastante com desfecho final

    Renato Cabral

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  2. Parece que estou vendo a cena kkkkkkkk

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